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Hepatites víricas: o estado da arte do diagnóstico e da terapêutica
segunda, 23 novembro 2020 16:15

Hepatites víricas: o estado da arte do diagnóstico e da terapêutica

No âmbito da Semana Digestiva Digital 2020, teve lugar a sessão virtual sobre “Hepatites Víricas”, com o apoio da Gilead. Moderada pelas Dr.ªs Maria Antónia Duarte e Cristina Fonseca, esta sessão recebeu como palestrantes convidados a Dr.ª Joana Nunes, a Dr.ª Ana Paula Silva e o Dr. Mário Jorge Silva.

A Dr.ª Joana Nunes, gastrenterologista no Hospital Beatriz Ângelo, foi a primeira palestrante a intervir, com uma apresentação sobre “Hepatite E”. Este vírus, pertencente à família de vírus Hepeviridae, tem um genoma curto, com uma cadeia simples de RNA não capsulado. “Existem, que se conheçam, oito genótipos do vírus da hepatite E, sendo os genótipos 1, 2, 3 e 4 queles capazes de infetar humanos”, explanou.

A hepatite E é caraterizada por um espectro clínico muito amplo, “podendo ser assintomática ou passando pela apresentação de uma insuficiência hepática aguda, entre outras manifestações extra hepáticas que podem ser renais, neurológicas ou de outra natureza”.

Os genótipos 3 e 4 estão mais associados às infeções entéricas, ocorrem nos países desenvolvidos e provocam sintomas neurológicos e hepatite crónica; enquanto os genótipos 1 e 2 estão associados às infeções que ocorrem nos países subdesenvolvidos por ingestão de águas contaminadas que, nas mulheres grávidas, podem ser graves. A este propósito, a palestrante alertou para a importância de realizar sessões de esclarecimento multidisciplinares para sensibilizar e rastrear esta doença.

“A hepatite E crónica, provocada pelo genótipo 3, afeta sobretudo indivíduos imunodeprimidos e está associada a quadros de fibrose rapidamente progressiva e cirrose em poucos anos”, explicou. O seu diagnóstico é baseado exclusivamente no teste da carga viral e o tratamento passa frequentemente pela redução da imunossupressão.

Segundo as guidelines da EASL, “devem ser testados todos os que tiverem sintomas associados à hepatite E, independentemente de alterações das transaminases”. O diagnóstico é baseado na serologia e na carga viral, “mas, se os testes para IgM forem positivos e IgG com títulos crescentes para o VHE positivos, pode ser feito o diagnóstico de hepatite E aguda”, esclareceu. Finalmente, sobre o tratamento, sustentou que “poderá estar indicado para os casos de infeções crónicas e hepatites agudas graves, o interferão peguilhado e o sofosbuvir.”

A apresentação seguinte, da autoria da Dr.ª Ana Paula Silva, gastrentetologista no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho, versou sobre “VHB e imunossupressores”. “O material genético do vírus da hepatite B é o DNA, cuja erradicação não é completa”, introduziu.

Já a reativação da hepatite B “ consiste no aumento súbito e rápido da carga viral num indivíduo com infeção crónica ou no reaparecimento do antigénio HBs num indivíduo com infeção resolvida”, definiu a Dr.ª Ana Paula Silva. “É uma complicação potencialmente grave da imunossupressão que reflete uma perda do controlo imunológico sobre o vírus e que tem uma incidência crescente com o uso de fármacos imunossupressores cada vez mais potentes e devido às faltas de rastreio e profilaxia”, alertou. “A maioria dos quadros clínicos são assintomáticos, mas podem ocorrer quadros de hepatite aguda de gravidade variável e mesmo falência hepática”, alertou a palestrante.

“Existem vários fatores de risco associados à reativação do VHB, nomeadamente o sexo masculino, presença de cirroses hepáticas, presença de antigénios HBs e HBe e o grau de imunossupressão”, elencou. “Assim”, detalhou, “é útil e prático estratificar estes riscos em: risco elevado quando o risco de reativação é superior a 10%, risco moderado quando o risco varia entre 1 a 10% e, finalmente o baixo risco quando este é inferior a 1%”.

Os doentes com antigénios HBs positivos devem ser referenciados para consulta de hepatologia e iniciar terapêutica antivírica como tratamento ou profilaxia. Já os doentes AcHBc positivos com alto risco de reativação devem fazer profilaxia com antivíricos. Finalmente, os doentes com serologia VHB negativa devem ser vacinados.

“É recomendado, segundo a EASL, o início da terapêutica antivírica o mais depressa possível com os fármacos mais potentes e de elevada barreira genética como o entecavir e o tenofovir, mantendo monitorização apertada”, explicou. “Sobre o tratamento em curso, é recomendável ajustar ou mesmo suspender, dependendo do caso concreto”, acrescentou ainda.

No entanto, defendeu a Dr.ª Ana Pula Silva, “o importante é apostar na prevenção.” “Como tal é preciso iniciar o rastreio da infeção por VHB antes de iniciar tratamento com imunossupressores, através da análise de parâmetros serológicos”, advertiu.

Conforme introduziu o Dr. Mário Jorge Silva, do Centro Hospitalar e Universitário Lisboa Central, EPE, na sua apresentação intitulada “Benefícios extra hepáticos da cura da hepatite C”: “O tratamento da hepatite C visa a cura, portanto, prevenir complicações de doença hepáticas e extras hepáticas associadas ao VHC, melhorar a qualidade de vida, reduzir o estigma e prevenir a transmissão do VHC”.

Por um lado, a hepatite C crónica estimula os linfócitos B a produzirem anticorpos podendo resultar numa crioglobulinemia mista e gamapatias monoclonais .Por outro lado, a produção a proliferação dos linfócitos B pode evoluir para o aparecimento de linfomas não-Hodgkin, sobretudo os linfomas da zona marginal e os linfomas B difuso de grandes células”, explicou o palestrante. “Uma vez que a criolgobulinémia pode agravar com a terapêutica de interferão, é recomendável a terapêutica com antivíricos de ação direta que pode resolver total ou quase totalmente a crioglobulinémia e as complicações associadas”, acrescentou ainda.

De seguida, o Dr. Mário Jorge Sila elencou uma série de complicações associadas à hepatite C  e reversíveis com a sua cura, nomeadamente: resistência à insulina/diabetes, doenças cardiovasculares/cerebrovasculares, doença renal e ainda certas perturbações neuropsiquiátricas.

Tendo em conta todas estas complicações associadas à hepatite C, conforme foi demonstrado, a cura da hepatite C está associada a uma melhoria geral da qualidade de vida dos doentes, avaliada por patient-reported outcomes. Além destes benefícios, o Dr. Mário Jorge Silva lembrou que a sua cura “também se traduz numa diminuição da transmissão da infeção, e portanto, quantos mais casos de hepatite C estiverem curados, mais rapidamente se consegue a sua eliminação. ”Tendo em conta todas estas complicações associadas à hepatite C, conforme foi demonstrado, a cura da hepatite C está associada a uma melhoria geral da qualidade de vida dos doentes, avaliada por patient-reported outcomes. Além destes benefícios, o Dr. Mário Jorge Silva lembrou que a sua cura “também se traduz numa diminuição da transmissão da infeção, e portanto, quantos mais casos de hepatite C estiverem curados, mais rapidamente se consegue a sua eliminação".

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