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Prémio Nacional de Gastrenterologia 2020 atribuído a trabalho sobre dissecção endoscópica da submucosa
quarta, 05 agosto 2020 11:32

Prémio Nacional de Gastrenterologia 2020 atribuído a trabalho sobre dissecção endoscópica da submucosa

O Dr. João Antunes, médico no Serviço de Gastrenterologia do Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ), foi o grande vencedor da edição de 2020 do Prémio Nacional de Gastrenterologia da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG), com um estudo sobre a dissecção endoscópica da submucosa no contexto do CHUSJ. Em entrevista, o especialista revelou algumas das conclusões do projeto, assim como o significado desta distinção.

News Farma (NF) | Tendo conquistado o Prémio Nacional de Gastrenterologia, consegue resumir o seu trabalho sobre dissecção endoscópica da submucosa?

Dr. João Antunes (JA) | A dissecção endoscópica da submucosa (ESD) é uma técnica endoscópica que permite a remoção e tratamento de neoplasias benignas e malignas precoces do tubo digestivo. É uma técnica altamente diferenciada, tecnicamente muito exigente e com uma longa curva de aprendizagem.

Embora haja grande evidência a demonstrar a sua importância e eficácia neste contexto, o seguimento dos doentes cujos procedimentos não foram totalmente curativos é ainda pouco reportado. Assim, é muitas vezes incerta qual a melhor estratégia a oferecer a estes doentes – por exemplo, a decisão entre referenciar para cirurgia ou manter o doente apenas em seguimento endoscópico.

O objetivo deste trabalho foi descrever a experiência do Serviço de Gastrenterologia do CHUSJ com os doentes submetidos a dissecção endoscópica da submucosa que não cumpriram todos os critérios de cura – ou seja, cuja análise histológica da lesão removida demonstrou alguma característica que, à luz do conhecimento atual, impede que se considere que o procedimento seja classificado como curativo. É sobretudo em função destes critérios histológicos que é tomada a decisão, multidisciplinar, entre operar um doente ou efetuar reavaliação endoscópica. O que avaliamos foi precisamente o resultado das cirurgias dos doentes que foram operados, e das endoscopias de seguimento a que foram submetidos aqueles que não foram operados.

A principal conclusão do estudo foi que, de todos os doentes com ESD não curativa, apenas 15% apresentaram de facto lesão residual no local da ESD, ou metastização linfática. Considerando unicamente os doentes com ESD não curativa que foram operados, observamos que apenas 21% tiveram lesão residual na peça cirúrgica. Ou seja, verificamos que a grande maioria dos doentes que foram operados já tinham de facto obtido a cura através da dissecção endoscópica da submucosa.

NF| Que implicações pode ter o trabalho na prática clínica?

JA | Este trabalho realça a necessidade de existirem melhores critérios para a referenciação para terapêutica complementar (nomeadamente cirurgia) após uma ESD não curativa, de maneira a evitar a morbilidade e mortalidade associadas a procedimentos cirúrgicos desnecessários para o doente.

NF| O que significa para si este prémio, pessoal e profissionalmente?

JA | Este prémio significa que o nosso Serviço continua a trilhar um caminho de sucesso em várias dimensões. Por um lado – a vertente clínica –, os resultados muito positivos deste trabalho estão de acordo com os restantes estudos já por nós publicados na área da dissecção endoscópica da submucosa, onde demonstramos obter a cura dos nossos doentes na grande maioria dos casos, com um excelente perfil de segurança. Este sucesso clínico traduz o cuidado e exigência que o Serviço impõe na formação e na criação das oportunidades para obtenção da competência técnica – a vertente formativa. Por outro lado – a vertente científica –, este prémio é reflexo e um dos frutos da grande cultura de investigação clínica e publicação de elevada qualidade levada a cabo pelo nosso Serviço.

NF | No âmbito da sua área de estudo, quais são os grandes desafios e limitações?

JA | Os grandes desafios são clínicos, formativos e científicos. Clinicamente queremos evoluir cada vez mais, de maneira a podermos aplicar esta técnica ao maior número possível de lesões, alargando assim o leque de doentes que podem usufruir das vantagens inequívocas da dissecção endoscópica da submucosa. Este objetivo será conseguido através da acumulação da experiência e da constante formação que tenho efetuado, e necessariamente continuarei, desde que comecei a realizar esta técnica. Os desafios científicos serão não só a realização de mais trabalhos de investigação clínica, preferencialmente em grande escala, mas também a incorporação da investigação laboratorial nesta técnica endoscópica (e vice-versa) – a investigação de translação. 

NF | Gostaria de acrescentar mais alguma informação?

JA | Gostaria de agradecer aos que tornaram possível o meu percurso nesta área, permitindo agora a conquista deste prémio. Queria destacar o meu agradecimento ao Serviço de Gastrenterologia do CHUSJ, nomeadamente ao Prof. Doutor Guilherme Macedo, que sempre estimulou e tornou possível a aquisição das competências técnicas, clínicas e científicas necessárias.

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